Pular para o conteúdo principal

Claustrofobia em um não lugar citadino - Cosmópolis, David Cronenberg

o "rato" se torna mercadoria em Cronenberg
Em apresentação na sua primière na França, Cannes, críticos falam do pecado de Cronenberg neste filme que parecia ter tudo para nos clarificar sobre nosso atual patamar contemporâneo. Esteticamente, políticamente, financeiramente. O pecado havia sido o tempo estático - sem maiores ações, sem maiores sentimentos afetivos. Cronenberg rebate: o filme fala de uma claustrofobia, não podia ser diferente.

Representado pelo jovem ator Robert Pattinson, este que, certas vezes, parece não querer atuar - uma qualidade que rememora um ponto alto alcançado por Pierre Clémenti, por exemplo -, o protagonista de Cosmópolis quer apenas cortar o cabelo. "Drama" joyceano, do livro de DeLillo. Ao lado de toda sua saga rumo à periferia da cidade, local onde fica seu barbeiro de infância, uma série de acontecimentos inúteis tangenciam sua rotina. A grande fatia do tempo fílmico é gravada dentro de uma limousine equipada com artefatos da nova aristocracia tecnológica.

Esse homem sem qualidades, inútil, homem da multidão, é um grande magnata de 28 anos. Vive em New York, e sorri, ingenuamente, dos ratos e militantes radicais anti-capitalistas que cercam seu grande carro. Ele vai de encontro à sua realidade exterior, do início ao final.

Obviamente o estilo de Cronenberg choca, como chocava em seus primeiros filmes absolutamente críticos de um mundo midiatizado. Hoje, no chamado capitalismo cibernético, temos uma noção básica dessa alienação provocada pela falta de inserção no digital - a falta de domínio, melhor dizendo, nesse mundo virtual que exclui mais que inclui. Que tipo de rumo é visionado pelo herói? O mercado financeiro e sua aposta em uma moeda crescente, a chinesa. Nada mais virtual que essa aposta.

Num universo onde o capital comanda, as pessoas tendem a ser zumbis manipulados, como os atores em Cosmópolis. O filme parece ser uma experiência rápida, corrida, mas enfática em sua imagem e som. Creio que não existe, no cinema americano, um autor que se aproxime de Cronenberg quando o assunto é diagnosticar as influências psicológicas, psiquiátricas, das mídias, dos meios - das telas (screens) e das moedas.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Memória, de Apichatpong Weeraserhakul

  Uma coisa é certa em filmes de Apichatpong: você não se vê no tempo unicamente cronológico. Esse tempo-outro, mais relatado pela indistinção entre o que chamamos de passado, presente ou futuro, nos coloca em um questionamento direto sobre nossa presença no mundo atual. Memória, seu novo tratado (insisto em não chamar apenas de filme uma tese contínua), procura nos evidenciar aquela indistinção. Mas o tempo indistinto, na memória de uma colonizadora - vivida por Tilda Swinton -, mente o tempo todo. Se realiza na ficção, numa espécie de loucura. Por que isso se mostra dessa maneira? Provavelmente porque a racionalidade, o “colocar tudo nos eixos” é alguma coisa muito pouco elucidativa. Esse uso do racional para mostrar o que queremos, ou o que parece ser o “real” já se encontra há muito tempo em crise. Na memória, nós vemos uma profunda escavação arqueológica. Ela nos coloca em questão, como pessoas viventes em uma narração ocidental. Essa memória é capaz de unir a Tailândia com a ...

O Anticristo (2009) - Lars Von Trier

No prefácio de “ Para Além do Bem e do Mal ”, livro do filósofo alemão Friederich Nietzsche, se vê uma rápida alegoria bem característica de sua escrita: “Suponhamos que a verdade seja uma mulher”. Assim toda a filosofia, na berlinda de uma racionalidade, seguiria essa bela moça que não se deixaria tão fácil ser cortejada. Precisaria ser desvelada. Já na sua obra manifesto, bem ao modo do Manifesto do Partido Comunista, de Marx e Engels, “O Anticristo”, Nietzsche tenta subverter o cristianismo, acusando-o do niilismo que domina a Europa pré-crise imperialista das grandes guerras. O filósofo demonstra que uma nova interpretação da Grécia antiga, por conseguinte da filosofia antiga, poderia ser o ponto chave de uma inversão de valores (ou, na palavra que ganhou a tradução no Brasil, na transvaloração). A Ciência Gay, ou Gaia Ciência, uma epistemologia da ciência sob o ponto de vista da aura feminina; a genealogia de uma história da moral imperativa kantiana - e máscula; a oposição entre...

Don't Look Up - Não olhe pra cima (2021)

Quem não gostou do filme, em particular da história do filme - do enredo -, é um negacionista. Disso não resta mais nenhuma dúvida. Mas, qual será a ordem desse negacionismo que nos cerca? Esse Bolsonaro-trumpismo influente e tão ameaçador que faria, nessa historinha de filme cômico, as democracias e os próprios democratas (se é que há democratas reais no filme) aderirem ao fim do mundo? Sim, se você não percebeu ainda, os negacionistas pretendem o fim do mundo. Seja de um mundo esférico, por uma defesa do mundo plano, seja de um mundo pleno (com E) e vivido pelas multiplicidades de pessoas diferentes. Esses negacionistas que nos atordoam a toda hora na internet, e que um dia foram chamados de HATERS, hoje estão nas famílias mais democráticas de nossas Américas, são negadores tal como aquela negatividade hegeliana que se travestiu ao longo dos tempos com a terminologia "crítica". Está, portanto, aberta a porta dos infernos, a chamada caixa de Pandora, um baú da infelicidade, ...