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Jogo das Decapitações (2013, Sérgio Bianchi)

Haveria quem dissesse que o sarcasmo dos filmes de Sérgio Bianchi pesam na mão, perdem um pouco a medida, transbordam com um ódio destilado pela “câmera-faca”. Mas e a velha procura pela realidade, não pode ganhar esse tom? O cinema brasileiro que tanto prezou por algum tempo em seu novo cinema – que, mesmo distante da maldição da ironia e sadismo em seu início, já demonstrava o que havia de falho nos discursos oficiais sobre o que se chamou por muito tempo de “Brasil” - , é ele um motivo ideológico impulsionado pelos seus diretores? E a morbidez do cinema chamado MARGINAL, em São Paulo? Contra a adoção da indústria carioca da Rede Globo? Não trariam, estes contextos algo a mais na discussão sobre a ideologia no cinema?

Impossível juntar ideologia e desbunde. Essa impossibilidade é vista em “Jogo das Decapitações”, de Bianchi. Ele mesmo parece propôr essa impossibilidade de diálogo desde seu principiante “Maldita Coincidência”(1973), este que se exibe em trechos também no filme atual. A proposta de chocar não está somente na polêmica, portanto. Usando dois sentidos que não conseguem olhar um para o outro a não ser com irritação, Bianchi assume sua inevitabilidade (inevitável - o que não se pode tolher porque é vivo) como artista contemporâneo e autor: aquela de não se acomodar com a situação que se chama “real” de hoje em dia.

A realidade mata os sonhos, matou a utopia da primeira década pós 1968 pelo mundo, matou também as intenções de gerações que propunham ali naquele tempo uma afinada discussão sobre os problemas e discursos mal arranjados do Brasil. Essa realidade é a que a arte tentaria sobrepor, contrapor. Mesmo em manifestos, ou em tonalidade declaratória de “não estou nem aí para o que se convence ser a realidade política atual”, os filmes de Bianchi solfejam um subdesenvolvimento que nunca pareceu sair da quase estrutural desavença de classes no país. Mas o que desafina está lá também. Uma esquerda vinda de uma classe media que assume as rédeas do que se impõe como real hoje, é também uma classe dominante que abomina o que se intitulou e se intitula de “marginal”.

E se estes marginais fossem a maioria de pessoas que sempre tentaram conviver com a classe média (mesmo a de esquerda) que vive no poder e na posição de dominação nas asas da elite histórica? E se o diálogo fosse mesmo o da conciliação de classes, determinado pela histórica submissão – e não subversão? Perguntas que o filme ironiza na questão de classes indeterminada, e constrangida pelo uso do Estado e do dinheiro público por aí.

A ser lançada no Brasil, a película (em digital) de Bianchi traz o ator Sérgio Mamberti como dois personagens icônicos e contraditórios, algo que merece talvez um olhar mais aberto do espectador. Primeiro, um jovem terrorista em “Maldita Coincidência”, depois um senador da esquerda (ou ex-querda) brasileira no “Jogo das Decapitações”. Obviamente o ator não compartilha diretamente posicionamentos de seus personagens, porém, a distância entre a performance dos anos 70 para os anos 10 manifesta-se abismal. Outro choque, entre o passado e o presente, desbunde e ideologia – que também insere a autoria de Sérgio sob o nome de Jairo, marginal, interpretado pelo velho Paulo César Peréio.


Entre os choques de blocos (passado e presente, marginais e esquerda, classe media e excluídos, arte e realidade, etc.) Bianchi escolhe seu lado. Não faz parte dos que acreditam em um burocratismo da esquerda petista no governo, e não acredita, como se vê nas entrelinhas de seus filmes, no "discurso pelo discurso", ou "arte pela arte". No uso da miséria. Na capitalização da pobreza. A proposta também não está em achar um novo discurso. Se, num país “Cronicamente inviável”, alguém ainda procura solução imediata, súbita, engana-se piamente após perceber-se inundado por cabeças decapitadas em motins de presídio, em um lixo na praça da Sé, em um eco das guilhontinas revolucionárias em forma de paródia… A razão aqui ainda paira entre as classes que insistem na conciliação, e não na pressão e tensão. Isso é vivo, nos filmes desse diretor paranaense, também classe media, paulistano. 

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