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Postagens

São Paulo é menos Brasil que Estados Unidos, só pra citar uma das almas generais da cidade que veio de fora. É menos Brasil e mais Roma, mais Itália, mais império, mais raiva. Dos anos 20 pra cá, essa pequena cidade cultural teve sua honra despejada em todo o país, demonstrando aos mais incrédulos o quanto é possível, num degrau bastante avançado do capitalismo mundial, celebrar uma ansiedade por belas vidas bem ajustadas. Esse tempo todo, nada de São Paulo saiu daqui. Neste tempo todo, nada é menos visível que algo que chamaríamos de cultura paulista, ou paulistana. Sabe por quê? Porque nada em São Paulo é feito aqui mesmo: tudo é importado e ajustado ao status subdesenvolvido das estruturas pensantes brasileiras. Isso levando-se em conta que existem essas estruturas pensantes, exemplificando instituições e organizações sociais com intenções fortes de viver uma vida melhor que a que nos é oferecida.

Uma escritora "beatnicka" nas bancas sem roupa, e sem cartaz

Fernanda Young não está lá muito para uma Silvia Plath, ou Hilda Hilst, muito menos para a musa, ou museu, agora só em imagem, Dercy Gonçalves - ela está para a globo, na estupenda globalização dos malfadados normais e em seriados sem graça. Ela nua, na revista , mostra uma coragem sem sal, tipo suicide girls . Pin Up paulistana da rua Augusta (parte nobre e burguesa). Seria esse o limite da fortaleza feminina pós- novela das 8? Esse o limite simulado de uma imposição, de um novo lugar da mulher na sociedade machista e provinciana cristã brasileira? Quem é de outro gênero, que se cale agora.

Alga Doce - Andrej Wajda

O misto de um gênero documentário com a ficção vem de muito tempo - e se renova mais a cada dia. Mas muito tempo mesmo, já que o teatro é, quase em sua essência, essa mistura. Se a realidade influencia na ficção do ecrã, tal como um dia o teatro influenciou, então cinema e teatro não possuem distinções claras. Um erro pensar assim. Cinema é uma história, mas também uma História. O espectador de cinema é como o de TV, só que mais atento, afinal pagou para perder aproximadamente 2 horas de sua vida na frente de um telão. Lá naquele buraco, naquela caverna escura, o espectador visualiza um mundo presente, levado pela narrativa e pela crença fundamental de que o que ele assiste ali se passa como se estivesse passando pela primeira vez. O "ao vivo" da TV surge com essa credibilidade que tem a impressão de realidade. Alga Doce, último filme de Andrej Wadja, mistura realidade e realidade criada. Mas o misto é sem problematizações maiores. Ali, quem assiste pensa: estou vendo um film...

Anthropophagie c´est cinema brasileiro?

Gravura tirada do livro de Hans Staden : Warhaftig Historia und beschreibung eyner Landtschafft der Wilden Seria a antropofagia uma zombaria do homem que viria da cultura de cavalaria? Poderia ser. Como Darcy Ribeiro diria - o índio é um zombador. Se assim a gente concorda, pelo menos nisso, a antropofagia que Oswald teria inventado de uma cultura antiga brasileira, ou, pré-brasileira, a suposta convicção de que essa cultura seria a única forte - neste ambiente de melancolia e tristeza que quer virar Portugal, um imenso Portugal, um Império Colonial... Se assim foi, o cinema a partir do início da década de 70 teve essa "nova revisão crítica". Mais postagens virão a respeito dessa "força" antropofágica.

O cinema novo

Grupo de amigos que vinham de contextos e lugares diferentes - mas com mesmo ideal. Nelson Pereira dos Santos havia sido um presidente do grêmio estudantil que partira para a militância próxima do Partido Comunista. Naquela época, como ele mesmo fala, o Partidão era outra coisa. Nisso ele encontra vários outros que viriam a se tornar também belos produtores de películas modernas, tais como Arnaldo Jabôr , Leon Hirszman , Paulo César Saraceni. Aqueles jovens de uma elite morgada, classe média carioca que saía de uma bela ressaca desenvolvimentista de JK, bolaram planos que ficaram para a história. Tudo viria ganhar em barroquice com a vinda do jornalista Glauber Rocha da Bahia. Domingos de Oliveira e Joaquim Pedro , da elite mais pra cima das estatísticas sociais, davam aval ao cinema que - agora sim deveria ser feito com precisão e seriedade. Carlos Diegues , Luís Carlos Barreto e Zelito Viana vinham mais tarde. A onda era nova no mundo, e o Rio de Janeiro sabia que dava pé subir...

Pierrot Lunaire

Não faz parte do carnaval, ou simbolos populares, apenas a felicidade. Baptiste, do filme de Marcel Carné, Les Enfants du Paradis ( Boulevard de um Crime, no Brasil) é o suicida melancólico, ainda que fora da composite moderna (ou, para alguns, pós-moderna). Baptiste é único, como pierrot, e ganha as platéias na maneira triste... Detalhe para sua vida na rua, como um vagabundo que procura sua amada. Por essa razão a polícia, como a realidade imposta à sua brincadeira fantasiosa, não tem piedade para com ele. O filme de Carné mistura, em vários níveis, a realidade "documentária" e a ficção "simbólica" . Sai da moderna briga com o cânon europeu, e adota um ponto de vista dramático com o uso de personagens da commedia del arte. Outro tipo de vanguarda, a propósito. Uma mais humilde, tímida, tal como é Baptiste.

Castellos de areia

Manuel Castells chega a nos contar, a nós latino americanos, que somos praticamente a razão de grande parte de crimes que acontecem nos EUA. A perspectiva desse autor é clara - a da globalização, e de uma possibilidade de interação pacífica entre as mais diferenciadas nações. Perspectiva, portanto, representativa - fora do âmbito de discussões no campo da cultura. Isso porque, se este autor tivesse entrado no campo das discussões de costumes, de habitos, vícios, posturas e visões, teria percebido que o Narcotráfico que é estruturado como um sub-mercado é, na verdade, uma reminiscência de períodos fascistas que houveram em grande parte da América do Sul - quando não financiados, observados com entusiasmo pelos EUA. Resumindo a celeuma aqui: o buraco é mais em cima. Em início de Milênio, os livros sobre sociedade em rede, no capitalismo da informação de Castells, já parecem antigos. Na verdade, ou no fundo, parecem um dos últimos respiros da sociedade informacional midiática hegemônica...